A dimensão do problema foi destacada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em relatório divulgado em abril de 2026. Segundo a entidade, mais de 840 mil pessoas morrem todos os anos em decorrência de problemas de saúde relacionados a riscos psicossociais no trabalho.
O relatório chama atenção para uma questão importante: saúde e segurança no trabalho não envolvem apenas a prevenção de acidentes ou a exposição a agentes físicos, químicos e biológicos. A maneira como o trabalho é concebido, organizado e administrado também pode produzir riscos relevantes à saúde.
O que são riscos psicossociais no trabalho?
Os riscos psicossociais estão relacionados às condições de organização e gestão do trabalho e às interações existentes no ambiente profissional.
Segundo a OIT, devem ser considerados aspectos como as exigências e responsabilidades atribuídas ao trabalhador, sua autonomia, carga e ritmo de trabalho, clareza das funções, supervisão, apoio recebido e as próprias políticas e práticas adotadas pela organização.
Entre os fatores destacados pelo relatório estão:
- longas jornadas de trabalho;
- insegurança no emprego;
- altas exigências associadas a baixo controle sobre o trabalho;
- desequilíbrio entre esforço e recompensa;
- bullying e assédio no ambiente profissional.
Isso significa que o problema não deve ser analisado exclusivamente sob a perspectiva individual do trabalhador. A própria organização do trabalho pode contribuir para a criação ou intensificação desses riscos.
Qual é o impacto dos riscos psicossociais sobre a saúde?
De acordo com o relatório da OIT, os riscos psicossociais relacionados ao trabalho estão associados principalmente a doenças cardiovasculares e transtornos mentais, inclusive situações relacionadas ao suicídio.
O documento também reúne evidências sobre a relação desses riscos com depressão, ansiedade, doenças metabólicas, distúrbios musculoesqueléticos e problemas do sono.
A estimativa apresentada pela OIT é expressiva: além das mais de 840 mil mortes anuais, os riscos psicossociais seriam responsáveis por quase 45 milhões de anos de vida saudável perdidos por ano, considerando doença, incapacidade e morte prematura.
O impacto não é apenas humano. Segundo o relatório, as perdas econômicas associadas ao problema são estimadas em aproximadamente 1,37% do PIB global por ano.
Por que a organização do trabalho passou a exigir mais atenção?
O ambiente profissional está passando por profundas transformações.
Digitalização, inteligência artificial, trabalho remoto e novos modelos de contratação modificaram a maneira como empresas e trabalhadores se relacionam com o trabalho.
Essas mudanças podem proporcionar flexibilidade e ganhos de produtividade, mas também podem intensificar riscos existentes ou criar novos problemas quando não acompanhadas de medidas adequadas de prevenção e gestão.
Monitoramento digital excessivo, cobrança permanente por resultados, dificuldade de desconexão, sobrecarga e indefinição de responsabilidades são exemplos de questões que merecem atenção dentro dessa nova realidade.
A prevenção deve considerar a própria organização da empresa
Um dos aspectos relevantes do relatório da OIT é a defesa de uma abordagem preventiva.
Em vez de tratar os problemas apenas depois que o trabalhador apresenta consequências para sua saúde, a recomendação é identificar e enfrentar suas possíveis causas dentro da própria organização do trabalho.
Isso envolve avaliar, entre outros aspectos, carga e ritmo de trabalho, autonomia, clareza das funções, supervisão, mecanismos de participação dos trabalhadores, gestão de mudanças organizacionais e procedimentos destinados à prevenção da violência e do assédio.
A OIT também destaca a importância de integrar a gestão dos riscos psicossociais aos sistemas de segurança e saúde no trabalho.
O que empresas e trabalhadores devem observar?
Para as empresas, o tema reforça a importância de avaliar o ambiente de trabalho de maneira mais ampla. A prevenção não deve ficar restrita aos riscos tradicionais de acidentes, mas considerar também fatores relacionados à estrutura organizacional, às relações profissionais e à forma como as atividades são exigidas e supervisionadas.
Para os trabalhadores, situações persistentes de sobrecarga, jornadas excessivas, assédio, insegurança ou condições organizacionais prejudiciais não devem ser encaradas automaticamente como características inevitáveis de determinada profissão.
Cada situação, contudo, precisa ser analisada individualmente. A existência de um ambiente profissional difícil não significa, por si só, que haverá responsabilidade jurídica do empregador ou direito automático a uma indenização. A análise depende das circunstâncias concretas, das condições de trabalho, dos danos eventualmente existentes e das provas disponíveis.
Riscos psicossociais são também uma questão de segurança e saúde no trabalho
O relatório da OIT evidencia uma mudança importante na compreensão da segurança e saúde ocupacional.
Proteger o trabalhador não significa apenas evitar acidentes físicos. Significa também examinar como o trabalho é estruturado, quais exigências são impostas, como as pessoas são gerenciadas e quais mecanismos existem para prevenir situações capazes de prejudicar sua saúde.
Para empresas, identificar esses riscos pode contribuir para prevenção, melhoria do ambiente profissional e redução de conflitos. Para trabalhadores que enfrentam situações potencialmente prejudiciais, a análise das condições de trabalho e da documentação disponível pode ajudar a identificar os direitos envolvidos e as medidas juridicamente adequadas.
Este conteúdo possui caráter exclusivamente informativo e não substitui a análise jurídica individualizada de cada situação.





